
Li hoje um artigo de Rui Bondoso, no JN, sobre um padre da minha terra de adopção que vai votar sim no referendo.
O meu sentimento para com os religiosos já estava a atingir o ódio depois de ter visto mais uma daquelas “cartas” de chantagem emocional a violar o meu correio, já focada num post recente no “Ai Jesus”, mas ao ler este artigo, de facto bondoso, esse sentimento ficou bastante atenuado.
Fez-me lembrar que muitos católicos têm poder de percepção e análise, apesar de recorrerem a muita coisa irracional na conduta das suas vidas, e relembrou-me dos amigos crentes que tenho e que nada têm haver com a gentalha que tenta propagar o medo.
Obrigado senhor Manuel Augusto Costa Pinto, padre reformado com 79 anos de juventude, que por vezes ainda é convidado a rezar missas.
O sacerdote, que já esteve suspenso 17 anos por ter defendido o casamento dos padres, assume todos os riscos e diz que está preparado, se for caso disso, para ser excomungado da Igreja.
Transcrevo o que senhor disse:
"Vou votar Sim no referendo ao aborto, porque não concordo com a actual lei. Uma lei que condena mulheres em tribunal, envergonhando-as. Uma lei que as obriga também a ter filhos não desejados, filhos que mais valia não terem nascido. Veja-se o caso do bebé de Moselos. Oxalá o Sim ganhe para que tudo fique resolvido".
"Não tenho medo. Defendo o que considero justo. A geração de um filho deve ser por desejo dos pais. É preciso evitar os casos das mães que vão ao quarto de banho meter a criança num saco de plástico e depois deitá-la ao lixo. É isso que muitas vezes acontece com filhos indesejados pelos pais. É um verdadeiro infanticídio. Isso sim, é que é crime", sublinha.
Reconhecendo que a posição que defende não tem muitos adeptos no interior da Igreja, diz que isso só acontece "porque os padres não estudaram o problema. Limitam-se a seguir o que dizem os bispos. Oxalá o Sim ganhe", reitera o sacerdote.
"Nas homilias não costumo falar sobre o aborto, a última vez que o fiz, chegou-me. Foi um burburinho...", lembra.
Diz ainda que a campanha do “Não” é má.
Para defender o Sim à despenalização da IVG, o padre diz que estudou os maiores teólogos de todos os tempos, alguns doutores da Igreja e cientistas antigos e actuais. "Um embrião é um ser inacabado, logo não há homicídio, não há crime. E até às 12 semanas o sistema nervoso não existe", sustenta Costa Pinto, que aproveita para condenar os "excessos" da campanha pelo Não.
"É vergonhoso, andam aí com fotografias de fetos que deixam muita gente escandalizada. É uma campanha pontuada muitas vezes por um muito mau gosto atroz", critica o padre de Viseu.
Valente!